Meditação para Iniciantes

Este artigo se destina às pessoas que nunca meditaram ou que possuem muitas dificuldades quando tentam meditar. Se você é experiente em meditação clique aqui.


Mitos

1. Meditação é uma maneira de fugir dos problemas.

Pelo contrário, com os olhos fechados, na penumbra ou na escuridão, com a atenção totalmente voltada para o interior: os problemas, emocionais ou do dia a dia formam ondas gigantescas na superfície da mente. A meditação também é uma ferramenta de reflexão e autoconhecimento, os pensamentos não irão magicamente desaparecer quando você meditar. Os problemas virão ao teu encontro, mas não para serem temidos ou para te atrapalhar, e sim para serem resolvidos através da compreensão, não reprimidos como fazemos no dia a dia: jogamos tudo no porão, sempre. Meditação recicla nosso lixo interior em algo sutil, é deste processo que se origina a sabedoria.

2. Meditação é coisa de gente mais velha

A meditação desenvolve o córtex pré-frontal. Praticar a consciência de seu estado interno, também pela meditação, dando a si mesmo a atenção e a harmonia que deveria ter realmente recebido quando criança. Esse estado de consciência aciona as regiões medianas do cérebro e aumenta a coordenação entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico; estes são substratos neurais essenciais do vínculo seguro (Siegel 2007). Região responsável pela inteligência emocional e o pensamento estratégico, seu desenvolvimento causa grandes impactos positivos na vida emocional, profissional e acadêmica. 

4. Devo ser budista para meditar.

A prática da meditação era realizada pelos egípcios há mais de 5000 mil anos antes de Cristo (Paul Brunton, O Egito Secreto, Pensamento, 1991). Segundo Johnson, em seu livro (Do Xamanismo à Ciência. Uma história da meditação, Cultrix, 1990), na antiga China, por volta de 300 a.C., a literatura taoísta, com mestres como Lao-Tzu e Chuang-Tzu, já expunha exercícios meditativos, de forma sistematizada. A literatura mística do norte da Índia, entre 1500 e 1000 a.C., também já apresentava técnicas de meditação. Os monges cristãos também praticavam a meditação, a meditação cristã é uma antiga forma de oração cristã, oração contemplativa que procura Deus no silêncio e na quietude, para além das palavras ou pensamentos. Enraizada no Evangelho e nas cartas de S. Paulo, foi ensinada por S. João Cassiano e pelos Padres do Deserto no século IV e redescoberta na 2ª metade do século XX por um monge Beneditino, John Main (1926/1982), que fundou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã (Comunidade Mundial de Meditação Cristã). 

3. Você só pode meditar em determinados momentos, voltado para determinadas direções.

Qualquer momento é propício. No ônibus indo para o trabalho, no trem voltando da faculdade, após terminar uma prova e ter que esperar o horário de saída. Na fila de um banco. Tudo que você precisa é respirar ritmicamente. Escreverei mais sobre isso ao longo deste artigo.

4. Você tem que meditar por horas para ir bem fundo.

Como qualquer prática, quanto mais praticar diariamente por 10 ou 20 minutos, mais habilidoso você se tornará em entrar no estado de relaxamento profundo, mas esteja atento ao item um desta lista de mitos: para o relaxamento acontecer, é preciso, primeiro, resolver os problemas através da meditação (reflexão) ou da ação consciente. 

5. Assim que eu meditar os pensamentos vão desaparecer.

O chamado vácuo mental ou esvaziamento natural da mente não ocorre de uma vez e pode não ocorrer nas primeiras meditações ou meses de meditação. Em média, após 10 minutos de meditação completa sem nenhum movimento, ocorre os primeiros sintomas de relaxamento mental: Desfoco de imagem, se de olhos abertos. Expansão da mente, se de olhos fechados, assim como perca da sensação física. 

6. Preciso ficar sentado na posição de lótus para meditar?

Não, pode-se meditar em qualquer posição desde que confortável.

7. Preciso estar num local silencioso para meditar.

Um local silencioso é favorável a meditação, mas não é necessariamente um requisito. Como qualquer barulho/objeto/sensação pode ser usado para contemplação, então enquanto se está meditando e na rua estão ouvindo música alta, você pode contemplar a sonoridade da música, as batidas da música. Sem julgamento. Apenas contemplação.

Prática

!O tempo mínimo para cada meditação com as técnicas a baixo é de cinco (5) minutos!



Técnica 1 – Reflexão

Como eu disse no item um da lista de mitos, a meditação pode e deve ser usada para a reflexão, por isso, escolhi como primeira técnica justamente o desenvolvimento do autoconhecimento. 
Sente-se confortavelmente. Respire fundo lentamente e solte lentamente, várias vezes. Escolha um problema emocional ou social para ser o objeto de reflexão. Reflita sem julgamentos sobre as consequências que este problema tem sobre você, sobre seu temperamento, sobre suas escolhas. Como você é influenciado(a) por este problema? Como ele impede que você se sinta seguro(a)? Qual a raiz deste problema? Como ele surgiu? Qual o seu oposto? Quais ligações este problema tem com sua personalidade? Enxergue o problema de ângulo maior, fora de si, se observe de uma perspectiva universal. Por ocasionar o relaxamento e por consequência expandir a mente, as soluções, durante a meditação, chegam com muita intensidade e clareza: os famosos insights. Deste processo também se origina a sabedoria.

Técnica 2 – Observar os Pensamentos

Sente-se confortavelmente ou deite-se, comece a observar seus pensamentos, sem se encantar por eles, sem participar do jogo de imagens e palavras. Observe como observamos uma criança mimada: pois é isto que a mente é no início. Observe o fluxo de pensamentos, como eles são vagos e desgovernados. Não tente controlar os pensamentos. Não entre no jogo deles, simplesmente observe sem se preocupar. O relaxamento e o vácuo mental virão aos poucos.

Técnica 3 – Observe as sensações do corpo

Sente-se confortavelmente ou deite-se, leve a atenção para as sensações físicas que estiver sentido. Tensões. Estalos. Pequenas dores. Calor ou frio. Contemple-as conscientemente, sem julgá-las. Sem se envolver por elas. Apenas as observe com gentileza. Esta técnica libera muitas tensões físicas e provoca o relaxamento mental facilmente. 

Técnica 4 – Meditação com vela 

Coloque uma vela acesa a mais ou menos um metro a sua frente, o ambiente precisa estar totalmente escuro, iluminado apenas pela chama da vela. Sente-se confortavelmente e passe a contemplar a chama da vela, sem piscar, com os olhos levemente cerrados, observe a chama sem movimento algum. Sua luz. Sua forma. Continue nesta prática até restarem você e a vela no universo. No começo será difícil não piscar, você não deve ficar com os olhos totalmente abertos ou arregalados, mas semiabertos, de modo que contemple a vela e não faça, ao mesmo tempo, força alguma para manter os olhos abertos.

Dificuldades

1. Se perder em conversas mentais ou reviver cenas do dia a dia, respondendo perguntas do passado de forma inteligente. Resolução: Esta dificuldade é o contrário da técnica dois. Você se deixou se envolver pela lembrança, passou de um observador a um agente ativo do pensamento, logo sentirá um desgaste mental e ao término da meditação não sentirá nada de diferente porque não meditou em nenhum momento. Pare e respire fundo lentamente, sem forçar o pulmão. O suficiente para o ar ir fundo, mas nunca force o peito para frente com força. Compreenda o momento presente, traga a atenção para o agora e volte a apenas e simplesmente observar os pensamentos. Nada importa neste momento. Somente você e o grande agora. O exercício de observação desenvolve o discernimento e autoconsciência por "forçar" o eu maior a observar o eu menor.

2. Vontade e agonia por estar parado, querer loucamente se mexer. Resolução: Levante! Mexa-se um pouco, sem movimentos bruscos e alongue o corpo um pouco. Fique um pouco nesta posição por alguns segundos ou minutos:

O leitor atento descobrirá o porquê da Yoga ser uma prática pré-meditativa.


Sem forçar os braços até o chão. Neste momento, não importa até onde você pode ir. Apenas permaneça com os braços suspensos, de olhos fechados, sentindo a coluna relaxar. Após isto, se souber faça outros alongamentos, volta a sua posição meditativa, respire profundamente devagar várias vezes e tente novamente. Em primeiro lugar a agonia acontece por o corpo estar tenso. Em segundo lugar, se ainda estiver sobre agonia, escolha outro horário para a prática meditativa. Cada pessoa possui um relógio biológico distinto que influencia diretamente na prática meditativa, eu por exemplo, medito eficientemente pela manhã ou a tarde, a noite tenho dificuldade inicial. Algumas técnicas avançadas de meditação trabalham diretamente esta agonia lutando contra ela e permanecendo em meditação, mas o objetivo deste artigo são os iniciantes, então manterei este foco. 

3. Medo de ficar com os olhos fechados. Resolução: Medite a luz do dia ou com um lençol cobrindo o corpo em posição meditativa, o medo desaparecerá aos poucos quando você compreender que não há nada exterior para ser visto. Este medo também pode ser causado pelo temor de fechar os olhos e enfrentar os próprios problemas. Esta dificuldade é a principal causa que afasta as pessoas da prática meditativa. A técnica quatro também pode ajudar quem possui este problema. Outra técnica meditativa para quem enfrenta este medo é a meditação caminhando, como na técnica três, você deve observar a sensação de pisar no chão. As solas dos pés, todos os músculos dos pés trabalhando, os dedos que estão tensos, respirando fundo e lentamente quando necessário. Os medos vêm e vão, o aprendizado é eterno.

4. Não conseguir manter o foco/concentração. Resolução: Isto não é um problema proveniente da meditação, mas um aspecto não desenvolvido do meditador. A função da meditação é desenvolver o foco e a concentração, então se você não possui um ou ambos, continue meditando! Não há problema algum em falhar, em não conseguir inicialmente. Com o tempo, como já explicado, a região responsável pela concentração se desenvolverá.

Peço desculpas pelo tamanho do artigo, mas não quis dividi-lo em duas partes. Qualquer dúvida fique a vontade para perguntar.

Série de cinco vídeos curtos ensinando a meditar, aconselho a focar na parte prática e não nas promessas transcendentais. 









Até a próxima!

L.A.

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